Seminário do Sindsefaz reuniu José Kobori e Natan Caixeta em debate sobre papel do Estado, reindustrialização, nova ordem mundial e necessidade de superar modelo econômico dependente de commodities
O Brasil precisa recuperar a capacidade do Estado de planejar e induzir o desenvolvimento, reconstruir sua indústria e aproveitar as mudanças na economia mundial para reduzir desigualdades e ampliar o bem-estar da população. Esse foi um dos principais eixos do primeiro painel do seminário “Diálogos Produtivos: Um olhar do Sindsefaz para a Bahia do futuro”, realizado nesta sexta (11), no Hotel Fiesta, em Salvador.
Promovido pelo Sindsefaz, o encontro reuniu especialistas para discutir cidadania fiscal, desenvolvimento, reforma tributária e os caminhos para a economia brasileira e baiana. O evento contou com a presença do secretário estadual do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, Augusto Vasconcelos, e recebeu a visita do deputado estadual Robinson Almeida (PT).
Antes dos debates, os participantes fizeram um minuto de silêncio em homenagem ao Agente de Tributos Estaduais Osmário Mendonça, morto no último sábado (05), após ser atropelado quando atravessava a BR-324 entre os dois módulos do Posto Fiscal Honorato Viana, em Candeias. Osmário estava em serviço e era delegado sindical do Sindsefaz.
Nova ordem mundial
No primeiro painel, “Cidadania Fiscal no enfrentamento à exclusão socioeconômica”, o economista e professor José Kobori partiu das mudanças na geopolítica para analisar os desafios brasileiros. Segundo ele, o mundo caminha para uma configuração multipolar, na qual os Estados Unidos já não exercem isoladamente o papel de potência dominante. A ascensão da China e de outros atores econômicos e políticos está reorganizando mercados, investimentos, cadeias produtivas e rotas comerciais.
Kobori chamou atenção para a disputa entre Estados Unidos e China e para as iniciativas norte-americanas em torno das principais rotas comerciais utilizadas pela economia chinesa. Para ele, compreender esse cenário é fundamental para definir qual posição o Brasil pretende ocupar na nova ordem internacional.
Em sua análise, a experiência chinesa também demonstra a importância de um Estado capaz de planejar, investir e coordenar estratégias de desenvolvimento, em contraposição à ideia de que o mercado, sozinho, seria capaz de produzir crescimento econômico com distribuição de riqueza.
Kobori defendeu que o Brasil retome o controle e o planejamento sobre áreas consideradas estratégicas, como os minerais críticos. Entre as propostas que defendeu, falou da criação de uma empresa estatal, a Terrabras, e afirmou que, se tivesse poder, reestatizaria a Vale.
O economista também fez uma leitura histórica do desenvolvimento brasileiro. Para ele, o golpe militar de 1964 interrompeu possibilidades que poderiam ter levado o país a outro patamar de desenvolvimento, fazendo com que o Brasil perdesse décadas de oportunidades.
Nordeste e industrialização
Ao discutir as desigualdades regionais, Kobori chamou atenção para uma questão diretamente relacionada à Bahia. Na sua avaliação, o Nordeste deveria ter ocupado posição prioritária no processo de industrialização brasileiro, inclusive pela localização geográfica da região, mais próxima, logisticamente, de grandes mercados consumidores da Europa e dos Estados Unidos.
A reflexão colocou no centro do debate uma pergunta que atravessou o seminário: como aproveitar as transformações econômicas internacionais para construir um projeto de desenvolvimento que reduza as desigualdades entre as regiões brasileiras?
Desenvolvimento subalterno
O economista Natan Caixeta aprofundou a discussão sobre o modelo econômico brasileiro. Para ele, o país permanece inserido de forma subalterna na economia internacional, excessivamente dependente da produção e exportação de commodities.
Caixeta criticou a ideia de que o Brasil deveria concentrar seus esforços apenas nos setores em que possui vantagens comparativas naturais. Na sua avaliação, um projeto apoiado predominantemente em commodities limita a capacidade de geração de tecnologia, empregos qualificados e maior valor agregado. Como alternativa, defendeu uma política de reindustrialização brasileira, aproveitando também as possibilidades abertas pela ampliação das relações econômicas entre os países dos BRICS.
Essa discussão dialogou com a crítica feita por Kobori à perda de capacidade de planejamento do Estado. Para os palestrantes, recuperar instrumentos de política econômica é condição para que o país possa definir estratégias próprias de desenvolvimento.
Caixeta fez ainda duras críticas à Lei de Responsabilidade Fiscal, que classificou como um dos maiores obstáculos impostos à capacidade de atuação do Estado brasileiro, e questionou o papel do sistema financeiro, que, na sua avaliação, não possui compromisso social compatível com as necessidades de desenvolvimento do país.
O debate colocou a cidadania fiscal em uma perspectiva mais ampla. Para além da arrecadação de tributos, a discussão mostrou que quem paga impostos, como os recursos são distribuídos e de que maneira o Estado utiliza sua capacidade fiscal são escolhas diretamente relacionadas ao modelo de sociedade e de desenvolvimento que o país pretende construir.

Salvador, 14 de Setembro de 2026 | Boletim 3472

