João Cezar defende organização sindical e alerta para efeitos da guerra cultural na sociedade

Professor abriu curso de Letramento Político do Sindsefaz com análise sobre extrema direita, mundo do trabalho, neoliberalismo e uso do discurso de ódio como instrumento de mobilização política

“Nada é mais importante no Brasil hoje que a organização sindical”. Com essa afirmação, o professor e escritor João Cezar de Castro Rocha destacou o papel da organização coletiva dos trabalhadores durante a aula magna que abriu, nesta segunda (28), o curso de Letramento Político do Sindsefaz, no Fiesta Bahia Hotel, em Salvador.

Com o tema “A política e o destino da Nação, hoje”, a atividade abriu uma nova etapa do projeto de formação promovido pelo Sindicato e deu continuidade às discussões iniciadas no Diálogos Produtivos, realizado no último dia 11. O evento teve o diretor do Sindsefaz Elias Fonseca como mediador e a diretora Silvia Maria como mestre de cerimônias.

Professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador que há anos estuda a guerra cultural e a ascensão da extrema direita, João Cezar relacionou esses fenômenos às transformações ocorridas no mundo do trabalho, ao enfraquecimento das formas de organização coletiva e ao avanço de projetos econômicos que, em sua avaliação, reduzem direitos e a capacidade de atuação do Estado.

Para ele, a organização sindical ocupa posição central nesse cenário. “O principal alvo da reforma trabalhista de 2017, no governo Michel Temer, foram os sindicatos”, afirmou, ao defender a necessidade de fortalecimento das organizações dos trabalhadores.

Guerra cultural e discurso de ódio

Boa parte da aula foi dedicada ao conceito de guerra cultural, tema presente nas pesquisas e livros de João Cezar. Segundo o professor, o Brasil está profundamente marcado pela ascensão da extrema direita, que utiliza a retórica do ódio e a construção permanente de conflitos como instrumentos para manter sua base social mobilizada.

Na avaliação apresentada durante a aula, a guerra cultural transforma diferenças políticas em uma lógica de enfrentamento permanente. Em vez de uma sociedade que debate projetos distintos, constrói-se um ambiente no qual o outro passa a ser tratado como inimigo. Esse processo, argumentou, contribui para manter a sociedade dividida e deslocar o debate público de questões concretas que afetam a vida da população.

“Estes setores querem manter a guerra cultural e o clima de ódio para manter o país dividido e inerte. Neste cenário, ganham sempre os mais fortes e o povo mais pobre é quem mais perde”, afirmou.

Estado e trabalho

João Cezar também relacionou o avanço da extrema direita a um projeto econômico que classificou como “neoliberalismo predador”. Segundo sua análise, setores desse campo político buscam desmantelar políticas públicas e ampliar a presença da iniciativa privada na prestação de serviços hoje oferecidos pelo Estado. Para o professor, as consequências desse processo recaem principalmente sobre as parcelas mais pobres da população, que dependem mais diretamente dos serviços públicos.

Ele usou o exemplo do Chile, que radicalizou em políticas neoliberais, para mostrar como as teses extremas da direita pode levar ao caos. No país vizinho, a privatização das aposentadorias levou ao empobrecimento dos aposentados e a um aumento vertiginoso da taxa de suicídio entre os mais idosos.

Ele também associou esse projeto a ameaças à soberania nacional e fez críticas ao que considera uma tentativa de subordinação dos interesses e das riquezas brasileiras aos Estados Unidos. Para ele, o apoio norte-americano a um dos candidatos tem como pano de fundo o acesso privilegiado a nossas reservas de minerais críticos, fundamentais para a indústria bélica e tecnológicas.

A questão ambiental apareceu como outra dimensão dessa disputa. Na interpretação apresentada pelo professor, o discurso negacionista contra a preservação do meio ambiente está relacionado a interesses econômicos que enxergam limitações à exploração dos recursos naturais como obstáculos ao mercado.

Empreendedorismo e direitos

As mudanças ocorridas no mercado de trabalho também ocuparam espaço importante na exposição. João Cezar chamou atenção para discursos que apresentam o empreendedorismo como alternativa necessariamente superior ao emprego formal. Para ele, é preciso observar criticamente essa narrativa quando ela é utilizada para naturalizar relações de trabalho sem direitos e proteção social.

A crítica não foi dirigida à iniciativa individual de quem decide empreender, mas ao uso político da ideia de empreendedorismo para justificar a substituição de relações formais de trabalho por vínculos mais precários. E é nesse contexto que o professor voltou à importância dos sindicatos e das demais formas de organização coletiva. Em sua avaliação, o enfraquecimento dessas instituições deixa os trabalhadores em posição mais vulnerável diante das transformações econômicas e das novas relações de trabalho.

Compreender o presente

A aula magna também discutiu o papel das redes sociais na disseminação da guerra cultural e a dificuldade crescente de estabelecer diálogo entre pessoas com posições políticas diferentes. Ao longo da exposição, João Cezar chamou atenção para a necessidade de compreender as estratégias utilizadas na disputa política contemporânea e os mecanismos pelos quais narrativas, informações e discursos de ódio circulam no ambiente digital.

A TV Sindsefaz entrevistou o professor João Cezar de Castro Rocha e em breve a conversa estará disponível no Youtube. Ele falou de todos estes temas.

Essa discussão está no centro da proposta do curso de Letramento Político do Sindsefaz, que visa oferecer instrumentos para que os participantes possam compreender melhor a política, as instituições, as disputas presentes na sociedade e seus reflexos sobre o mundo do trabalho e a vida cotidiana.

A atividade desta segunda abriu o curso anunciado pelo Sindicato como uma continuidade do Diálogos Produtivos. Se naquele encontro especialistas debateram desenvolvimento, desigualdade, cidadania fiscal e reforma tributária, o Letramento Político amplia a discussão para a compreensão dos processos políticos e sociais que interferem na vida dos trabalhadores e nos rumos do país.

Dinâmica do curso

Ao final da atividade, a professora Débora Irineu, que conduzirá as atividades do curso de Letramento Político, apresentou aos participantes a proposta da formação e explicou como serão desenvolvidos os encontros. Ela falou sobre a dinâmica, os temas e a forma como estes serão trabalhados ao longo das atividades, preparando os participantes para a sequência da formação após a aula magna.

Com a iniciativa, o Sindsefaz busca criar um espaço permanente de informação, reflexão e debate, oferecendo à categoria instrumentos para uma melhor compreensão da realidade política, econômica e social brasileira.

A mensagem deixada por João Cezar na abertura colocou a organização coletiva no centro dessa reflexão. Para o professor, diante das transformações no mundo do trabalho, da polarização e da guerra cultural, fortalecer os espaços de organização social, entre eles os sindicatos, é fundamental para ampliar a capacidade dos trabalhadores de participar das decisões que afetam seus direitos e suas condições de vida.

Salvador, 22 de Setembro de 2026 | Boletim 3479

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