Esse pequeno texto tem como base o livro de Stephen Hawking (1942-2018): Uma breve história do tempo.
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Como uma onda no mar
Canção de Lulu Santos e Nelson Motta
Afinal, o que é o nada? De onde ele vem? Seria um ponto de partida para entender a origem do universo? Essas são questões que movem a humanidade há milênios, intrigando filósofos, cientistas e pessoas comuns, por exemplo, eu.
A ideia de como o nada surgiu é um dos maiores mistérios da filosofia clássica e da física moderna, e não há uma única resposta. A questão sobre a origem do nada é um paradoxo em si, pois o seu surgimento implica um ponto de princípio na esfera do tempo. Entretanto, o nada pode ser atemporal, ou seja, o nada pode não está sujeito às limitações do tempo. Isso quer dizer que o nada, desafinando toda a nossa compreensão contemporânea, pode não tem um começo, um meio ou mesmo um fim.
Para tanto, desde os primeiros filósofos, o homem se debruça sobre um conceito que, por definição, parece inatingível: o nada. Originário do latim, o nada é mais do que uma simples negação do tudo, que pode ser compreendido como a totalidade do ser, ou seja, a existência. Nesse contexto, o nada, compreendido como a ausência do ser, se estabeleceu como um dos maiores enigmas que intrigam tanto a filosofia clássica quanto a física moderna.
Parmênides de Eleia (c. 515-450 a.C.), no século V a.C., lançou o veredicto inaugural: O ser é, o não-ser não é. Para ele, o próprio ato de pensar ou nomear o nada o transforma imediatamente em um algo. Sua famosa frase, ex nihilo nihil fit (nada surge do nada), resume seu ponto de vista. Séculos mais tarde, Aristóteles (c. 384-322 a.C.) disse que o universo era um pleno, sem a possibilidade de um vácuo ou um espaço vazio. O nada, em seu sentido mais puro, não existia. O nada não era a ausência total de existência, mas sim a privação de algo. Por exemplo, a escuridão não é o nada, mas sim a privação da luz. A cegueira não é o nada, mas a privação da visão.
Apesar de Parmênides e Aristóteles terem negado a existência de um nada absoluto, os atomistas trouxeram uma perspectiva revolucionária. Para Leucipo (c.460-370 a.C.) e Demócrito (c. 460 a.C.-370 a.C.), o nada não era uma negação, mas sim um espaço vazio necessário para que os átomos pudessem se mover, se combinar e se separar. Assim, o nada é tão real e importante quanto a própria matéria. Com o avanço da ciência, o nada ganhou força. Para Nicolau Copérnico (1473-1543) e Johannes Kepler (1571-1630), o nada não era questão central. Eles concentraram seus estudos em descrever os movimentos dos corpos celestes. Foi Galileu Galilei (1564-1642) que disse que na existência do vácuo, o espaço vazio que era essencial para suas ideias sobre o movimento. Isaac Newton (1643-1727) abraçou a visão de Galileu, fazendo do vácuo o pilar de sua física. Para ele, o espaço era um palco vasto e vazio, onde a matéria se movia e a gravidade agia. No entanto, o advento da física moderna, em especial a mecânica quântica, mostrou que essa visão estava errada. O que se pensava ser o nada, o vácuo, é, na verdade, um campo de energia em seu estado mais baixo. Essa concepção permaneceu inquestionável até Albert Einstein (1879-1955) revolucionar a física.
A física moderna, liderada por Einstein, revolucionou nossa compreensão do universo e, consequentemente, do nada. A Teoria da Relatividade Geral nos mostrou que o espaço e o tempo não são um palco fixo e vazio, onde os eventos acontecem. Eles formam um único e dinâmico tecido, o espaço-tempo, que pode ser curvado, esticado e deformado pela presença de massa e energia. A gravidade, que Newton via como uma força que atuava à distância em um vácuo inerte, é, para Einstein, a manifestação dessa curvatura. A física quântica, por sua vez, revelou que mesmo o espaço vazio não é inerte; é um campo fervilhante de flutuações quânticas. Em um frenesi de existência efêmera, pares de partículas e antipartículas surgem e se aniquilam constantemente, um fenômeno possível graças ao “empréstimo” de energia do próprio vácuo.
É paradoxal e desconcertante: o nada não existe. Ele é uma miragem, um limite que se afasta à medida que nos aproximamos. É um conceito necessário para contrastar a plenitude do ser, mas que nunca se realiza. O universo, em toda a sua imensidão visível e invisível, é um tecido contínuo de campos, energias e potencialidades. Todavia, não há um vazio, apenas uma transformação infinita. Explorar o universo é, assim, deparar-se constantemente com a superabundância de um ser que se recusa terminantemente a ser nada.
Nessa busca incessante pelo conhecimento, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) revolucionou a forma como a filosofia enxerga o nada. O nada não é um oposto estático do ser, mas seu momento dialético. O nada, portanto, é a própria base da vida e do pensamento, o ponto de partida para a criação, isto é, a negação que impulsiona tudo para frente. Logo, partindo do princípio que o nada não é um vazio, o nada pode ser a chave para entender a singularidade do universo. Em vez de ser a ausência de algo, o nada seria a própria fonte da energia que está fazendo o universo se expandir.
O nada não é um vazio absoluto nem relativo que tenha surgido de repente ou por acaso. Ele é um estado de latência, onde as leis da física já estavam presentes, e uma flutuação aleatória de energia pode ter desencadeado a criação de tudo que conhecemos. Assim, o nada pode ser a existência do que tudo se tornou possível.
Seja na filosofia clássica ou na física moderna, o nada é um dos grandes mistérios da humanidade, pois não existe uma única resposta para sua definição, que muda drasticamente dependendo do ponto de vista. A forma como pensamos sobre o nada evoluiu ao longo do tempo, de uma negação lógica a um estado de potencialidade.
Em fim, para Stephen Hawking (1942-2018), universo veio da explosão de algo totalmente nulo, isto é, do nada. Esta é a explicação do Hawking, como também do físico teórico Lawrence Krauss (1954-), o nada é tão instável que ele tende a criar algo, como o nosso universo. No entanto, se fizermos uso da dialética de Hegel, podemos argumentar que o nada não cria coisa alguma.
Juliano Giassi Goularti
Doutor pelo Instituto de Economia da UNICAMP


