Inteligência artificial transforma a fiscalização, mas não substitui o fiscal

Sistemas inteligentes identificarão riscos em segundos, mas a conferência da realidade continuará dependendo da atuação dos fiscais nas estradas, nas DATs e nos postos fiscais

Durante muito tempo, a evolução tecnológica alimentou uma ideia aparentemente lógica, que quanto mais avançassem a tecnologia, as notas fiscais eletrônicas e os sistemas de cruzamento de dados, menor seria a necessidade da fiscalização presencial. A Reforma Tributária mostra que essa conclusão está longe da realidade.

O novo modelo de tributação sobre o consumo, baseado no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), amplia o uso de tecnologias capazes de processar milhões de informações em poucos segundos, identificar padrões suspeitos e orientar a atuação das administrações tributárias. Mas nenhuma dessas ferramentas elimina a necessidade da atuação humana.

Para o Agente de Tributos Estaduais Fábio Barbosa, um dos autores do artigo A ressignificação das Auditorias no Trânsito de Mercadorias pela Reforma Tributária, a inteligência artificial deve ser compreendida como uma aliada da fiscalização, e não como sua substituta. “A IA é ótima para dizer onde olhar primeiro. Ela cruza dados, aponta padrões suspeitos, sinaliza operações fora da curva e ajuda a priorizar onde a fiscalização precisa estar”, diz ele.

Segundo Fábio, a tecnologia reduz o tempo gasto com análises preliminares e aumenta a capacidade de identificar operações com maior probabilidade de fraude.

Realidade na estrada

Se a inteligência artificial será capaz de selecionar as operações mais arriscadas, a confirmação da fraude continuará dependendo do trabalho realizado pelos fiscais. É na abordagem do veículo, na conferência da carga e na comparação entre a documentação e a mercadoria transportada que muitas irregularidades são efetivamente descobertas.

Fábio Barbosa resume essa diferença em uma frase que sintetiza o novo modelo de fiscalização. “Ela não abre a carroceria do caminhão, não confere se a mercadoria bate com a nota fiscal, não percebe que o destinatário informado não existe. Isso ainda depende de gente indo lá e vendo com os próprios olhos”, afirma. Na prática, a inteligência artificial aponta o caminho. A decisão continua sendo humana.

Novo perfil

A incorporação de ferramentas inteligentes também exigirá uma profunda transformação no perfil dos servidores que atuam na fiscalização. Se antes bastava dominar a legislação tributária e os procedimentos de fiscalização, agora será necessário compreender indicadores de risco, análise de dados, logística, comportamento das cadeias produtivas e funcionamento dos algoritmos utilizados pelas administrações tributárias.

Segundo Barbosa, esse novo cenário amplia – e não reduz – a importância da qualificação profissional. “O servidor vai continuar precisando saber abordar um veículo, conferir carga, analisar documentos fiscais e atuar nas rodovias. Mas agora terá que somar a isso a leitura de indicadores de risco, o entendimento dos fluxos econômicos e a forma como as fraudes acontecem dentro da cadeia do IBS”, diz. Para ele, a formação permanente passa a ser condição indispensável para que os fiscais acompanhem a velocidade das mudanças tecnológicas.

DATs na era da IA

Na Bahia, essa transformação dialoga diretamente com o trabalho desenvolvido nas Delegacias de Administração Tributária (DATs), nas equipes volantes e nos postos fiscais. Essas unidades passam a desempenhar um papel ainda mais estratégico na fiscalização do trânsito de mercadorias.

A tendência é que os sistemas inteligentes indiquem quais operações apresentam maior risco, permitindo que as equipes concentrem esforços nas situações com maior potencial de fraude. Isso significa menos abordagens aleatórias e mais fiscalização orientada por inteligência.

Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de profissionais capazes de interpretar informações complexas, tomar decisões rápidas e validar, no mundo real, aquilo que os sistemas identificaram como suspeito.

Mas, ao contrário da ideia de que máquinas substituirão pessoas, a Reforma Tributária aponta para um modelo baseado na cooperação entre tecnologia e conhecimento humano. Enquanto os algoritmos analisam milhões de operações simultaneamente, cabe aos fiscais interpretar contextos, avaliar comportamentos, identificar inconsistências e confirmar a materialidade das operações.

É essa combinação que permitirá proteger a arrecadação dos estados e municípios em um ambiente tributário cada vez mais digital.

Investir nas pessoas

Para Fábio Barbosa, a transformação tecnológica também impõe um desafio institucional. Mais do que adquirir softwares modernos, será necessário investir continuamente na capacitação e valorização dos profissionais responsáveis pela fiscalização. “O trabalho dos colegas que atuam nas DATs e nos postos fiscais não está perdendo espaço. Está ganhando um espaço que antes nem existia. O IBS só funciona se alguém confirmar que a mercadoria realmente saiu de onde saiu e chegou onde deveria chegar”, finaliza.

A afirmação reforça uma das principais conclusões desta série especial do Sindsefaz: a tecnologia muda profundamente a forma de fiscalizar, mas o sucesso da Reforma Tributária continuará dependendo da competência, da experiência e do compromisso dos homens e mulheres que atuam diariamente na proteção das receitas públicas.

 

Salvador, 14 de julho de 2026 | Boletim 3426

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