Selic em 14% ao ano encarece o crédito, limita investimentos e transfere renda pública e privada aos banqueiros

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu nesta quarta (05) a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano. Embora represente o quarto corte consecutivo promovido pelo Banco Central, a diminuição de apenas 0,25 ponto percentual é tímida e insuficiente para produzir impacto sensível sobre o crédito, o investimento e a atividade econômica. Com a inflação projetada ainda distante dos 14% nominais da Selic, o Brasil continua convivendo com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, próxima de dois dígitos.

Na avaliação do Sindsefaz, manter os juros nesse patamar significa conservar uma verdadeira camisa de força sobre a economia brasileira. O crédito continua caro para as famílias, que pagam mais nas compras parceladas, nos cartões, nos financiamentos de imóveis e veículos. Para as empresas, sobretudo as pequenas e médias, o custo do dinheiro reduz a capacidade de investir, ampliar a produção, modernizar equipamentos e gerar empregos. O próprio Banco Central reconhece que juros elevados reduzem a força do consumo e desaceleram a atividade econômica.

Orçamento sequestrado

A Selic elevada também incide diretamente sobre a dívida pública, aumentando o custo de financiamento do Estado. Quanto mais o governo precisa gastar para remunerar títulos públicos, menos recursos ficam disponíveis para saúde, educação, infraestrutura, ciência, tecnologia e políticas sociais. Para o Sindsefaz, a manutenção prolongada de juros reais em torno de 10% cria uma trajetória perigosa para as contas públicas e pode transformar a dívida em instrumento permanente de submissão do Estado brasileiro aos interesses dos detentores do capital financeiro.

Forma-se, assim, uma armadilha conhecida. O chamado mercado exige cortes de despesas públicas em nome do equilíbrio fiscal, mas pressiona simultaneamente pela manutenção de uma taxa de juros que amplia o custo da dívida e deteriora as próprias contas que afirma defender. O Estado é cobrado por um ajuste cada vez mais severo enquanto parcela crescente do orçamento é transferida aos bancos, fundos e grandes aplicadores.

Inflação X recessão

Os defensores da política monetária restritiva argumentam que a Selic elevada é necessária para controlar a inflação. No entanto, grande parte das pressões recentes sobre os preços decorre de fatores sobre os quais os juros têm pouca influência direta, como conflitos internacionais, petróleo, alimentos, câmbio e preços administrados. Na decisão anterior, o próprio Copom reconheceu a relevância das incertezas externas e dos preços das commodities em suas projeções.

Juros podem conter uma inflação provocada pelo excesso de demanda, mas não produzem alimentos, não reduzem o preço do petróleo e não resolvem gargalos de oferta. Utilizar quase exclusivamente a Selic significa tentar controlar todos os preços pela redução do consumo, do investimento e do emprego. A consequência pode ser uma economia mais fraca sem que as causas estruturais da inflação sejam devidamente enfrentadas.

O risco aumenta diante da necessidade anunciada de ajuste das contas públicas em 2027. Caso a política fiscal contracionista seja combinada com juros ainda próximos dos atuais, o país poderá enfrentar forte desaceleração e até risco de recessão no segundo semestre do próximo ano. Seria mais uma tentativa de desenvolvimento interrompida justamente quando o Brasil precisa investir em infraestrutura, indústria, transição energética, tecnologia e serviços públicos.

Concentração de renda

A política de juros elevados não atinge todos da mesma forma. Trabalhadores e pequenos empreendedores enfrentam crédito caro, redução do consumo e insegurança econômica. Na outra ponta, bancos, fundos e grandes detentores de títulos públicos recebem rendimentos elevados e praticamente sem risco.

Por isso, juros estratosféricos também funcionam como mecanismo de concentração de renda no andar de cima. O Brasil já possui uma das estruturas sociais mais desiguais do mundo: levantamentos baseados na World Inequality Database estimam que o 1% mais rico controla parcela próxima da metade da riqueza nacional, enquanto estudos do IBGE mostram que a renda do trabalho desse grupo supera em mais de 30 vezes a obtida pela metade mais pobre da população.

Essa concentração é agravada por um sistema tributário historicamente benevolente com as altas rendas e os patrimônios. Enquanto o consumo popular é fortemente tributado, lucros, dividendos, grandes fortunas e rendimentos financeiros recebem tratamento proporcionalmente mais favorável. A combinação entre baixa progressividade tributária e juros elevados transfere renda de toda a sociedade para uma pequena parcela situada no topo.

Independente de quem?

A autonomia do Banco Central foi apresentada pelos setores liberais como garantia de decisões técnicas e livres de interferências políticas. Mas independência não pode significar afastamento das necessidades da população nem submissão automática às expectativas dos agentes financeiros.

Na avaliação do Sindsefaz, um Banco Central verdadeiramente comprometido com o país deve considerar, além da estabilidade dos preços, os impactos de suas decisões sobre o emprego, a produção, a dívida pública, a renda e o desenvolvimento. A redução para 14% é insuficiente diante da urgência de destravar a economia brasileira.

Mudar essa realidade exige que a direção do Banco Central seja ocupada por pessoas comprometidas com o interesse público e sem vínculos que comprometam sua independência em relação aos bancos e ao mercado financeiro. O Brasil não pode permanecer condenado a escolher entre crescimento e estabilidade. Precisa de uma política monetária capaz de combater a inflação sem abortar o desenvolvimento, sacrificar o setor produtivo e transferir parte considerável da riqueza nacional aos rentistas.

Salvador, 06 de agosto de 2026 | Boletim 3447

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