Notícias

Home » Notícias

1248 – Estudiosos questionam origem do 8 de março e tentam..

  Boletim Eletrônico nº. 1248 – Salvador, 04 de março de 2016

Estudiosos questionam origem do 8 de março e tentam recontar a história

Mais de um pesquisador vem afirmando que a comemoração do Dia Internacional da Mulher em 8 de março não é bem pelos motivos expostos até hoje pelo movimento de mulheres e dos trabalhadores. Para eles, como a “história se perdeu” em mais de um século, uma confusão de fatos e datas teria levado a cristalização de uma ideia sobre a origem do dia e o próprio fato gerador, qual seja, a “mitológica” greve de tecelãs de Nova Iorque, em 1957, com a morte de 129 operárias na fábrica Cotton.

A primeira menção a essa greve apareceu no jornal L ´Humanité, do Partido Comunista Francês, na véspera do 8 de Março de 1955. Mas onde se dá a fixação da data do 8 de março, devido a esta greve, é numa publicação, que apareceu em Berlim, na então República Democrática Alemã, da Federação Internacional Democrática das Mulheres. O boletim é de 1966. O artigo fala rapidamente, em três linhas, do incêndio que teria ocorrido em 8 de março de 1857 e depois diz que em 1910, durante a 2ª Conferência da Mulher Socialista, a dirigente do Partido Socialdemocrata Alemão, Clara Zetkin, em lembrança à data da greve das tecelãs norte-americanas, 53 anos antes, teria proposto o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Várias pesquisas, entretanto, dizem que não foi bem assim.

A primeira pesquisadora a questionar oficialmente esta história foi a canadense Renée Coté, no livro “O Dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas”, de 1984. Posteriormente, Liliane Kandel, em 1982, escreveu o artigo “O Mito das Origens: sobre o Dia Internacional da Mulher” e Eva Blay, em 1999, escreveu “8 de Março: Conquistas e Controvérsias”. Um ano depois, a ONG Sempreviva Organização Feminista (SOF), lançaria o texto “8 de Março, Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida”. Todos os escritos vão no mesmo sentido.

REFERÊNCIAS

Segundo as pesquisas, não há referência bibliográfica sobre a greve de 1857, nem em jornais da época e nem em documentos históricos dos sindicatos norte-americanos. Essa versão mais aceita sobre o 8 de março, proposto por Clara Zetkin na Conferência de Mulheres Socialistas, não é bem a história real. 

Nos EUA, desde 1908, operárias comemoravam o “woman’s day” ou “women’s day”, uma atividade que foi lembrada pela primeira vez em Chicago, em 3 de maio de 1908. Um ano depois passou a ser uma atividade oficial do partido socialista americano e organizado pelo comitê nacional de mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909. Já em 1910, a data teria sido comemorada em 27 de fevereiro.

O que Clara Zetkin teria proposto na Conferência de Mulheres Socialistas de 1910 foi a transformação do “woman’s day” ou “women’s day” em “uma jornada especial, uma comemoração anual de mulheres, seguindo o exemplo das companheiras americanas”, sem a indicação de uma data específica. Aprovase, assim, um Dia Internacional das Mulheres, para ser organizado em todos os países, com a reivindicação central sendo o direito de voto para as mulheres, porém, sem data definida.

Tanto foi assim, que em 1911, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado na Alemanha em 19 de março e na Suécia em 1º de maio, junto com o Dia do Trabalhador. O dia seria comemorado em 8 de março de 1914, na Alemanha, mas também de forma espontânea.

Em fevereiro de 1917, na Rússia, manifestações de mulheres tomaram as ruas de Petrogrado. Eram manifestações contra a guerra, a fome, a escassez de alimentos. Ao mesmo tempo, operárias do setor têxtil entraram em greve. Era o dia 23 de fevereiro (que corresponde ao dia 8 de março no antigo calendário ortodoxo), que se comemorava o Dia Internacional das Mulheres na Rússia. Documentos de 1921, da Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, fala que “uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do Dia Internacional da Mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas”.  

Esta foi a primeira referência oficial ao 8 de março como Dia Internacional da Mulher que está documentada. A confusão teria sido feita na recuperação da história. O século XX foi bastante conturbado, com duas grandes guerras mundiais, revoluções na Rússia, na China e em países da América Latina, protestos e movimentos na Europa, nos EUA e na Ásia, com repercussão internacional, a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã etc. A interrupção das comemorações e desorganização do movimento comunista internacional teria contribuído para o lapso histórico.

CONFUSÃO

A canadense Renée Côté pesquisou, durante dez anos, em todos os arquivos da Europa, EUA e Canadá e não encontrou nenhuma referência à greve de 1857. Nem nos jornais da grande imprensa da época, nem em qualquer outra fonte de memórias das lutas operárias. Segundo ela e outras pesquisadoras, a greve e a morte das 129 tecelãs em 8 de março de 1857 teria surgido como uma confusão de fatos e datas. Com o tempo, cristalizou-se e virou fato real.

Se não há relatos sobre a greve e as mortes da fábrica Cotton, existe farto relato de duas outras greves ocorridas na mesma cidade de Nova Iorque, mas em outra época. A primeira foi uma longa greve de costureiras, que durou de 22 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro de 1910. A outra foi uma greve numa fábrica têxtil, em 1911. Segundo os documentos, em 29 de março foi registrada a morte, durante um incêndio causado pela falta de segurança nas péssimas instalações do local, de 146 pessoas, na maioria mulheres imigrantes judias e italianas.

Desse período até a matéria do jornal francês L ´Humanité, do Partido Comunista Francês, e da publicação alemã da Federação Internacional Democrática das Mulheres passaram-se décadas, com duas guerras nesse ínterim. Como não houve rigor na pesquisa de então, um mito se formou e se consolidou. É uma história que poderia ser recontada, mas que envolve vários atores e interesses, inclusive de enorme conteúdo histórico. O importante é que o tema saiu do armário.

Em 2004, em artigo publicado pelo Núcleo Piratininga de Comunicação, o falecido jornalista e professor Vito Gianotti elaborou um cronograma de datas que ajuda a entender a origem do 8 de março. Veja abaixo.

Certo é que, independente da origem, o 8 de Março é hoje um marco da luta das mulheres. O Sindsefaz (leia mais aqui) também participa desta luta, reivindicando o fim da discriminação e mais igualdade na Sefaz, na Bahia e no Brasil. A entidade se junta a outros movimentos, como a União Brasileira de Mulheres (UBM), Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, Fórum de Mulheres do Mercosul/Brasil, Observatório da Mulher, entre outras organizações, para engrossar as fileiras dessa importante luta.

Datas básicas sobre a origem do 8 de Março

1900-1907 
Movimento das Sufragistas pelo voto feminino nos EUA e Inglaterra.

1907 
Em Stuttgart, é realizada a 1ª Conferência da Internacional Socialista com a presença de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai. Uma das principais resoluções: “Todos os partidos socialistas do mundo devem lutar pelo sufrágio feminino.”

1908 
Em Chicago (EUA), no dia 3 de maio, é celebrado, pela primeira vez, o Woman´s Day. A convocação é feita pela Federação Autônoma de Mulheres.

1909 
Novamente em Chicago, mas com nova data, último domingo de fevereiro, é realizado o Woman’s Day. O Partido Socialista Americano toma a frente.

1910 
A terceira edição do Woman’s Day é realizada em Chicago e Nova Iorque, chamada pelo Partido Socialista, no último domingo de fevereiro. Em Nova Iorque, é grande a participação de operárias devido a uma greve que paralisava as fábricas de tecido da cidade. Dos trinta mil grevistas, 80% eram mulheres. Essa greve durou três meses e acabou no dia 15/02, véspera doWoman’s Day. Em maio, o Congresso do Partido Socialista Americano delibera que as delegadas ao Congresso da Internacional, que seria realizado em Copenhague, na Dinamarca, em agosto, defendam que a Internacional assuma o Dia Internacional da Mulher. Este deve ser comemorado no mundo inteiro, no último domingo de fevereiro, a exemplo do que já acontecia nos EUA. Em agosto, a 2ª Conferência Internacional da Mulher Socialista, realizada dois dias antes do Congresso, delibera que: “As mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão (…) um dia das mulheres específico, cujo principal objetivo será a promoção do direito a voto para as mulheres“. Não é definida uma data específica.

1911 
Durante uma nova greve de tecelãs e tecelões, em Nova Iorque, morrem 134 grevistas, a causa de um incêndio devido a péssimas condições de segurança. Na Alemanha, Clara Zetkin lidera as comemorações do Dia da Mulher, em 19 de março. (Alexandra Kollontai diz que foi para comemorar um levante, na Prússia, em 1848, quando o rei prometeu às mulheres o direito de voto). Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 26/02 e na Suécia, em 1º de Maio.

1912 
Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 25/02.

1912 e 1913 
Na Alemanha, o Dia da Mulher é comemorado em 19/3.

1913 
Na Rússia é comemorado, pela primeira vez, o Dia da Mulher, em 3/3.

1914 
Pela primeira vez, a Secretaria Internacional da Mulher Socialista, dirigida por Clara Zetkin, indica uma data única para a comemoração do Dia da Mulher: 8 de Março. Não há explicação sobre o porquê da data. A orientação foi seguida na Alemanha, Suécia e Dinamarca. Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher foi comemorado em 19/03.

1917 
No dia 8 de Março de 1917 (27 de fevereiro no calendário russo) estoura uma greve das tecelãs de São Petersburgo. Esta greve gera uma grande manifestação e dá início à Revolução Russa.

1918  
Alexandra Kollontai lidera, em 8/3, as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, em Moscou, e consagra o 8/3 em lembrança à greve do ano anterior, em São Petersburgo.

1921 
A Conferência das Mulheres Comunistas aprova, na 3ª Internacional, a comemoração do Dia Internacional Comunista das Mulheres e decreta que, a partir de 1922, será celebrado oficialmente em 8 de Março.

1955 
Dia 5/3, L´Humanité, jornal do PCF, fala pela primeira vez da greve de 1857, em Nova Iorque. Não fala da morte das 129 queimadas vivas.

1966 
A Federação das Mulheres Comunistas da Alemanha Oriental retoma o Dia Internacional das Mulheres e, pela primeira vez, conta a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1969 
Nos Estados Unidos, o movimento feminista ganha força. Em Berkley, é retomada a comemoração do Dia Internacional da Mulher.

1970 
O jornal feminista Jornal da Libertação, em Baltimore, nos EUA consolida a versão do mito de 1857.

1975 
A ONU decreta, 75-85, a Década da Mulher.

1977 
A Unesco encampa a data 8/3 como Dia da Mulher e repete a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1978 
O prefeito de Nova Iorque decreta dia de festa, no município, o dia 8 de Março, em homenagem às 129 mulheres queimadas vivas.

Sindsefaz,
Avançar na Luta

 

Compartilhe:
Entre em Contato

Rua Maranhão, nº 211 - Pituba
Salvador - Bahia | CEP: 41.830-260

Redes Sociais

Sindsefaz na Mídia

Você já é filiado?

Faça o seu Cadastro!
Rolar para cima