Consultor do Sindsefaz afirma que o século XXI deixou de ser marcado apenas pelo livre comércio e passou a ser uma disputa entre projetos nacionais de desenvolvimento
O aumento das tarifas impostas pelo governo Donald Trump aos produtos brasileiros não pode ser compreendido apenas como uma medida de proteção comercial. Para o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, consultor do Sindsefaz, trata-se de um movimento muito mais profundo, que revela uma transformação na geopolítica mundial.
Em artigo produzido sobre o tema, ele sustenta que o livre comércio deixou de ocupar posição central nas estratégias das grandes potências. Hoje, Estados Unidos, China e União Europeia disputam investimentos, tecnologia, inovação, cadeias produtivas e empregos por meio de políticas industriais, subsídios, crédito público, controle tecnológico e barreiras comerciais.
“O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros não deve ser interpretado apenas como mais um episódio de protecionismo comercial. Ele revela uma mudança estrutural da economia mundial, diz Clemente.
Pressão política
Segundo Clemente, a própria justificativa econômica apresentada pelos Estados Unidos não se sustenta. Dados oficiais mostram que os norte-americanos mantêm superávit comercial na relação com o Brasil, tanto em bens quanto em serviços, o que enfraquece o argumento de desequilíbrio comercial.
Para ele, o objetivo passa a ser político. Ao utilizar tarifas para pressionar outros países, Washington transforma o comércio internacional em instrumento de coerção, condicionando o acesso ao mercado norte-americano ao alinhamento com seus interesses estratégicos.
Na avaliação do consultor do Sindsefaz, a grande disputa internacional deixou de ocorrer apenas pelos mercados consumidores. Hoje, ela acontece pela capacidade de atrair investimentos, dominar tecnologias e concentrar empregos qualificados. “A principal disputa contemporânea não é apenas por mercados. É pelos empregos”, avalia.
Segundo Clemente, controlar tecnologia significa controlar conhecimento, produtividade e soberania econômica. Por isso, políticas comerciais passaram a ser utilizadas como instrumentos para reorganizar cadeias produtivas e fortalecer projetos nacionais de desenvolvimento.
Responder com inteligência
Para Clemente Ganz Lúcio, o Brasil deve defender seus interesses utilizando os instrumentos previstos no direito internacional e na Lei da Reciprocidade Econômica, mas evitando uma escalada de confronto. “Nenhuma nação soberana pode aceitar passivamente medidas unilaterais que prejudiquem seus trabalhadores e sua capacidade produtiva”, prega.
Ao mesmo tempo, a resposta brasileira precisa ir além da política comercial.
O Brasil reúne condições excepcionais para fortalecer sua posição internacional. Além de contar com um dos maiores mercados consumidores do mundo, dispõe de uma matriz energética relativamente limpa, liderança agrícola, capacidade industrial, um sistema financeiro digital reconhecido internacionalmente e uma das maiores reservas de minerais críticos e terras raras do planeta, recursos fundamentais para a produção de baterias, semicondutores, equipamentos de defesa e tecnologias ligadas à transição energética.
Esses ativos conferem ao país uma posição estratégica em um cenário global marcado pela disputa por tecnologia, inovação e segurança das cadeias produtivas.
Para Clemente, a melhor resposta ao tarifaço não está apenas na imposição de contramedidas comerciais. Ela passa pela construção de um projeto nacional de desenvolvimento baseado em reindustrialização, inovação, educação, ciência, tecnologia, fortalecimento do mercado interno e valorização do trabalho. “Na nova geopolítica do trabalho, defender empregos significa defender produtividade. Defender produtividade significa defender soberania”, opina.
O episódio envolvendo o tarifaço e as críticas ao PIX evidenciam que as grandes disputas do século XXI já não se restringem às alfândegas. Elas envolvem o controle da tecnologia, das finanças, das cadeias produtivas e dos recursos estratégicos.
Nesse contexto, defender a soberania nacional significa garantir que o Brasil tenha autonomia para decidir seu próprio caminho de desenvolvimento, proteger seus interesses permanentes e transformar suas vantagens estratégicas em prosperidade para a população.

Salvador, 22 de julho de 2026 | Boletim 3438

